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domingo, 25 de abril de 2010

Leia um conto.

JANEIRO


Dez horas. Peguei meus óculos escuros com hastes brancas e percebi que eles estavam com um leve arranhão na lente. Bem de leve, mal dava pra perceber. Queria sair e sentir o sol nos meus cabelos. Não sinto. Prendo-os com uma borrachinha. Continuo caminhando, dou voltas, vou e volto na avenida principal daquela praia. Nada me prende. Não sinto mais as vozes das pessoas ao meu redor.

Sentei num banco de praça que estava no meio do caminho; junto com todos os meus sonhos e mais coisas que deixei pra trás. Fico pensando horas e mais horas no que fazer e nada concluo. Como se a vida tivesse alguma lógica! Como se alguém pudesse fazer conclusões perfeitas, com nexos oracionais conclusivos e vírgulas nos lugares certos. Eu acreditava que sim, eu tinha objetivos claros o bastante e poderia definir o meu caminho e encerrar a minha dissertação, não com chavões, mas com emoção – coisa que nunca explorei nesses poucos e longos anos da minha vida.

Lapso de memória. Lapso de emoção. Meu coração começou a tocar uma canção agitada. É ele o meu objetivo final. Levanto e vou em direção a sua casa. Encaminhando-me para a conclusão. Fico ansiosa. Louca para revê-lo. Faz tempo que eu não o vejo. Amores de verão. Histórias que tivemos e passaram com as estações. Minhas pernas tremem. Grito de felicidade - de agonia por já não estar junto a ele. Eu o amo. Eu não tenho tanta certeza de uma coisa assim há muito tempo. Meu Deus, como eu o amo. Ele me absorve. Suga-me. Eu sinto a sua alma entrar em mim. Nossos corações batendo juntos num ritmo brega de bolero. Eu estou apaixonada. Não concluo mais nada. Não penso. Ajo. Faço. Eu estou cada vez mais perto dele. Seus cabelos tão leves, tão macios. Seus movimentos fluindo em volta das minhas pernas é simplesmente a coisa que eu mais gosto de sentir.

Começo a correr, louca de desejos. Fico ofegante, minha boca fica seca. Meus pés começam a queimar, o asfalto quente atravessa minha pele e começa a correr pelas minhas veias, estou me solidificando. O sol não me queima mais, é impossível queimar outro corpo mais quente. Meu corpo vibra. Quebras as ligações. Joga elétrons no lixo.

Já enxergo o que quero; estou pisando no território abençoado. O seu território é suave. É brisa. Sinto meus átomos explodindo, estou me desintegrando. Espero que sobre um pouco de ligações completas e sólidas quando eu chegar a ele. Espero que ele me note. Leve-me. Se jogue diante do meu corpo e que eu sinta aquele frio na barriga clássico. Que minha pele fique fria para ele precisar aquecer. E, eu tenho certeza, que ele não vai negar me esquentar. Diminuo a velocidade, porque estou enxergando ele.

Amo estar junto dele. Talvez seja essa a minha paixão, a única que eu guardei pra mim e a única que ainda vale a pena investir. Imenso. Infinito. Não existe nada melhor que amar algo infinito – ou pelo menos infinito para os olhos. Sempre terá coisas novas. O infinito é infinito, entende? Eu tenho infinitas coisas no infinito para amar; não se pode restringir a uma. E eu sinto que tenho tanto para amar e que o meu amor é versátil, poder ser usado tantas vezes, de tão diferentes formas - seria um pecado se eu o restringisse a uma coisa se não ao infinito. Ao azul. Com a sua forma indefinida de me olhar, ele me nota. Sinto a vibração das minhas moléculas, elas estão se soltando como na sublimação.

Jogo-me nas suas ondas. Ele me pega no colo e embala-me lentamente. Está me sugando! Estou desintegrando, sublimando. Tudo vai ficando menos nítido, meio embaçado. Meus óculos caem do meu rosto, não os enxergo mais. Meu corpo cai agora num vácuo, sem som. Vejo luzes. Flashes me vêm na cabeça, histórias antigas, rostos, imagens. Lembro de minha mãe, tão doce e amável, de meu pai, com a sua armadura que escondia um coração maravilhoso. Meus irmãos, que tanto protegi, agora estão grandes e independentes, não precisam mais de mim. Amo todos esses rostos, mas eles não podem viver pra me amar e nem eu depender deles pra seguir em frente.

Sinto seus braços me repuxando. Pra direita. Meus cabelos se espalham na imensidão azul, estão bonitos e lisos. Ele afunda-se no meu corpo. Afundo-me. Somente ele poderia me possuir totalmente e eu me sentir feliz com isso. As bolhas sobem. Gritos. Estou apaixonada, não penso no que faço, só faço. Só vejo enormes bolas redondas transparentes subindo feito doidas e de fundo as nuvens lá em cima. Nenhum rosto, nenhum corpo quente. Água. Água. Água; líquida.

Eu me entreguei ao meu amor e fugi de outro que não me dava bola. Fugi da minha vida.

Yádini Winter -
 
Um dos contos do livro que estou escrevendo.Livro dos Meses .

quinta-feira, 26 de março de 2009

Começo difuso.


Nada parecia estar conectado. Alguém tinha me deixado. Só alguém. Não lembro o nome nem a cor dos olhos, nem lembro se gostava dele. Talvez eu esteja me lembrando de quanto eu o amava. Por isso que dói. Meu corpo dói. Minha mente está desligada; como a televisão. Acho que era alto, gosto de homens altos. Loiro? Tanto faz, o que importa são os olhos. Verdes ou azuis? Cor de mel também é bonito. É. Bonito ele era, ou é. Eu consigo rostos bonitos. Gosto de rostos, bem de perto. Os detalhes. O olhar. As curvas. As bochechas macias. Quentes. Ele era quente com certeza. Pegava fogo e seu coração batia mais rápido que o normal em uma simples conversa. Talvez ele tivesse algum problema, ou fosse nervoso com mulheres. Mulher. Isso que sou. Sou mulher e atraente. Difícil para trabalhar, ainda mais quando se trabalha com rostos. Eles expressam tudo. A boca retorcida, os lábios secos, respiração rápida, o desviar dos olhos ou fixação dos mesmos; cada um tinha um jeito. Tentava enquadrá-los o mais lindamente possível. Mas ele. Só poderia ser ele. O rosto mais lindo que já vi; com sorrisos e bocejos. Como poderia esquecer? O enquadrado. Na minha câmera. Vou pegá-la. Aqui, ainda tem fotos dele. Lindos olhos. Olhos pirotecnicamente lindos. Sugadores. Profundos. Perdidos.
Achei-o. Na minha mente ao menos - Entrando na pasta... Joseph Volver: “Loiro, olhos claros, alto. A minha cara. Gentil, misterioso e sabe se vestir. Quieto. Observa-me tanto que perco o foco. Enquadramento perfeito... aperto. Pronto.” Acabaste aí. Junto com a minha vida e o meu passado recente. Algo estranho aconteceu, eu sinto. Sempre fui meio instintiva.
[...]
Yádini Winter

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

doce veneno




Doce Veneno


Noite gela de outono, minhas mãos tremiam envoltas em seu corpo límpido, branco e puro. Uma donzela, uma deusa, soberanda desta terra e além dela. Eu vestia uma capa negra como a noite, como um corvo, e botas totalmente embarradas. Ela suspirava, como se estivesse pedindo socorro, como se sua vida estivesse acabando.

Abracei-a, fortemente, com os meus braços fracos. Sentia meu sangue ferver como vinho quente, eu sabia que isso tudo podia ser inútil, que a qualquer momento aquilo poderia acabar; eu sentia isso. Mas eu não podia desistir dela, de levá-la para casa e cuidar de cada ferimento e cada marca de seu corpo machucado. Eu tinha de fazer isso, era o meu dever, o meu destino.

A encobri com a minha capa negra, peguei-a no colo e levei-a para o abrigo mais próximo, um antigo santuário meio abandonado, perto dos túmulos maiores. Coloquei aquele corpo gélido sob o altar, e, me vi observando cada detalhe e cada curva daquele anjo mau, toda aquela delicadeza e pureza escondida sob a seda branca do seu vestido. Beijei-a, delicadamente. Senti-me vivo! como nunca havia me sentido anteriormente. O sangue corria nas minhas veias cada vez mais rápido e meu coração parecia que iria saltar do meu peito, doce veneno.

Passei a mão em seus cabelos ruivos e fogosos, como o pôr-do-sol no lago da antiga Helville; eles eram extremamentes longos e encaracolados. Seu pescoço era a mais bela das partes, lívido e albino, me aproximei do mesmo. Ela começava a retornar a cosciência, mas antes que isso viesse a acontecer: mordi. Sangue vermelho, puro e quente, escorriam entre meus lábios saciados, brindavam a morte e fazia o amor. Me feriam e me curavam. Doce veneno, doce Vampiro.


Yádini Winter (texto feito para a aula de literatura)