quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Texto do Curso de Criação Literária

O LAPSO
Yádini Winter

Giovanni acordou naquele dia como se nada tivesse acontecido. Atirou o cobertor no chão e se levantou para desligar o despertador. Foi ao banheiro, pegou algo para comer na cozinha e foi olhar tevê na sala. Passava os canais procurando alguma coisa que não sabia definir; nada o agradava nos cento e vinte canais. Decidiu tomar um banho e sair um pouco.
Ignorou tudo o que tinha se passado nos últimos dois meses. Ele só queria se libertar. Caminhar. Pegar ônibus. Correr. Passeio sem fim definido. Observar as árvores, a maneira com que as folhas dançam no ar até chegarem ao chão, o lixo atirado no meio-fio, as formigas trabalhando desde cedo, o canto bonito e irritante dos pássaros se misturando à melodia dos pneus e buzinas no centro da cidade. Ele queria esquecer as conseqüências que os seus atos impensados poderiam trazer.
Giovanni era distraído e se irritava com coisas bestas, como as roupas das pessoas: não usava terno, nem moletom da GAP, comprava tudo no balaio do brechó; pensava ser um cara contra o sistema por causa das suas malditas roupas usadas. Ele era um merda. Não controlava as palavras que saiam da sua boca; quando percebia que não poderia falar, já tinha falado. Os resultados das suas atitudes nunca lhe favoreciam, mas mesmo assim ele continuava fazendo e falando o que não podia.
Naquela manhã, Giovanni sentou-se em um banco na praça perto de sua casa e começou a procurar uma solução para aquela besteira que fez ontem à noite. Suas mãos estavam marcadas naquele muro perto do bar, sua voz estava gravada nas paredes daquele beco. Não fumava, mas quis comprar cigarro. Comprou, fumou e sentiu as suas costas gelarem. Tocou na parte de trás da sua camiseta e ela estava encharcada. Antes que pudesse perceber o que aconteceu, desmaiou.
Acordou dentro de uma sala branca com luzes amarelas apontando para o seu rosto. As mãos e pernas amarradas em uma mesa fria. Ouvia vozes e sussurros em uma língua que não conseguia identificar. Tamparam seus olhos. Sentia a pele de sua barriga ser repuxada, mas não sentia dor. “Devem ter me anestesiado”. Giovanni não conseguia falar, nem abrir a boca. Procurava respostas em sua mente; não as achava. Dor na cabeça. Desmaiou.
Estava sentado no banco de outra praça. Não sabia onde estava. Levantou e começou a caminhar procurando algo que identificasse. Nunca havia visto aquelas lojas. Quando passou em frente a uma vitrine não se reconheceu: estava com outras roupas, outro cabelo e outro rosto. ‘O que está acontecendo comigo?’
Giovanni continuou andando. Correndo. Estava desesperado. Perguntou onde ele estava para uma mulher que caminhava na calçada. Ela olhou com medo para ele e saiu correndo. Tentou se acalmar. Sentou no chão e respirou fundo. Levantou. Foi quando percebeu que a rua estava tomada de lixo, as lixeiras estavam transbordando e cheias de lixo ao redor. Olhou para cima e só viu uma luz amarela forte em meio a arranha céus. Ele não sabia o que fazer.
-Giovanni! Fique parado! – gritou um homem de chapéu e terno pretos e uma barba comprida - como os judeus mais conservadores se vestem. Giovanni congelou. Olhou para trás e não reconheceu o homem.
-Tu me conhece? Da onde tu me conhece? Onde eu ‘tô’?
-Não se faça de tonto. Eu não esqueci o que aconteceu no beco ontem à noite.
-Quê?!
- Os avisos já foram enviados e as modificações concluídas. A próxima fase da operação só depende de você.
- Qual a ligação do que aconteceu ontem com tudo isso agora? O que ‘tá’ acontecendo?!
- Só depende de você. É melhor você se cuidar mais. Não é seguro continuar aqui. – Giovanni correu para agarrar o judeu, mas passou entre ele e acabou caindo no chão. Era um holograma. Giovanni levantou, ficou em pé na frente do judeu, olhou em seus olhos e perguntou o que estava acontecendo. A resposta do holograma o chocou mais uma vez: “Mensagem gravada. Não posso responder suas perguntas”.
Giovanni foi dando passos para trás apavorado, colocou as mãos no rosto, se agachou e tentou se acalmar. Então ouviu o canto dos pássaros novamente. Sentiu uma luz vermelha iluminar seu rosto. Não havia barulho de carros. Sentiu gelar seu crânio. Ficou em pé e sem abrir os olhos correu em direção à luz. 

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