sábado, 29 de outubro de 2011

Texto do Curso de Criação Literária

TEMA: Dois sujeitos que se encontram. Começa com um personagem e termina com outro.

OS SUJEITOS
Yádini Winter
Estava perto da mesa meio a um milhão de outras coisas. Esquecido no escuro, embaixo de outros que eram mais importantes no momento, mais úteis. Tornava-me cada vez mais empoeirado e sujo, estava me estragando, quase entrando em depressão. O pior é que eu estava novo em folha, não havia marcas nem machucados, e isso que me deixava mais triste. Não consigo entender como as pessoas são capazes de te possuir e depois te esquecer. Um amigo que morava comigo em outra casa tinha me dito que tu és responsável por aquele que cativas; tudo bem que ele era um tanto subjetivo e complicado, mas, mesmo assim, todos o elogiavam o tempo inteiro, ele criava imagens realmente belíssimas. Eu era simples e direto, não menos poético, não menos importante.
O quarto onde eu ficava a maior parte do tempo era pequeno, comum e prático, as pessoas dormiam, acordavam e trocavam de roupa. Sempre bagunçado, coisas empilhadas pelos cantos. Todos sempre estavam na correria diária; eu nem acordava direito e já jogavam roupas por cima de mim, se enchiam de perfume – o que me causava alergia- e saiam rapidamente, nem desligavam a luz! Eu só aceitava, não tinha coragem de reclamar, ali ninguém reclamava. Enquanto nos dessem um lugar para morar seríamos agradecidos. Era tão apertado que dava para sentir a respiração dos outros dormindo perto de ti, ficávamos um do lado do outros espremidos como sardinhas.
Eu me deparava todo o dia com pessoas de todos os tipos, com crenças e objetivos de vida diferentes. Às vezes eles chegavam aos montes, famílias inteiras junto a alguns perdidos no mundo, uns mais novos, outros mais estragados pela vida. Alguns se achavam mais importantes que os outros, pela beleza ou pela a sabedoria, mas nos fundo éramos todos iguais, feitos basicamente do mesmo material para o mesmo objetivo. Tínhamos estórias incríveis, de todos os gêneros: aventura, romance, terror... Havia alguns que divagavam lindamente sobre as coisas do mundo- tão poéticos!- descreviam o que sentiam como ninguém. Os revoltados eram muito admirados por todos, mas chegava uma hora que essa ladainha pessimista enchia o saco, e eu me voltava para as crianças, onde tudo era um arco-íris, com rimas e diversão.
Eu sonhava com o dia em que alguém me descobrisse meio aquele monte de gente, ouvisse o que eu tenho a dizer, tentasse me compreender. Eu já tinha visto tantos saírem do meu lado e conquistarem o mundo! Sempre pensava que eu iria ser o próximo, sentia o calor chegando perto de mim “Eles vão me pegar!”, mas sempre era outro colega. Às vezes eles tinham as roupas mais sujas que as minhas e, mesmo assim, eram escolhidos e não voltavam nunca mais. Para onde será que eles iam? Devia ser um lugar maravilhoso, ensolarado. Eu imaginava um céu azul tomado de nuvens e eu deitado na grama tentando ver as figuras que se formavam nele.
Amanheceu e tudo parecia normal quando, como um sopro, senti uma mão pegar meu corpo. Desmaiei.
-Achei! ‘Tava’ procurando esse livro faz tempo, acho que nunca usei, só comprei e coloquei na estante.
-Eu disse que devia ‘tá’ no meio dessa tua bagunça.
- ‘Tá’ meio apertada essa prateleira já, vou ter que comprar um armário pra colocar todos esses livros. Ahh... A minha amada biblioteca.
-Dá uma passada na loja de móveis e vê quanto tá uma estante nova pra ti, oras.
-‘Tá, tá’. Tenho que ir lá. Tchau.
-Tchau.
Agora que achei esse livro sou obrigado a lê-lo. Eu gosto de ler, mas a internet faz com que eu fique lendo quadrinhos abobados a tarde toda. Acabo perdendo um tempo precioso. Acho que eu leio quase vinte livros por ano. Não gosto de todos, eu não sou tão cara-de-pau que nem meus outros colegas do curso de letras que acham genial tudo que o professor sugere. Eu já li Paulo Coelho mesmo e até achei divertido.
Esse livro está empoeirado e meio sujo, melhor eu passar um pano se não vou começar a espirrar. Alergia, né. Ainda bem que livros não sofrem com esse tipo de coisa, os meus já estariam todos mortos. Eu lembro o dia que comprei esse livro, estava ele num sebo lá do centro da cidade do lado do ‘Pequeno Príncipe’ em francês que quase o comprei também, os dois pareciam combinar.
Os dias foram passando e aquele livro foi se tornando um dos meus melhores amigos. Andava com ele por todos os lados. Deitava na grama na faculdade e tentava desvendar o motivo de cada palavra estar ali, o que havia por trás das frases. Não é uma questão de simples sintaxe, é entender como as palavras dançam no espaço, o poder que elas possuem. Tentava também compreender o autor, como os professores mandavam, mas acho que um livro, depois de escrito não tem mais dono, ele se torna um ser por si só, livre. Penso na maneira como foi feito, em tudo que ele passou pra chegar às minhas mãos, ‘c’est fantastic’,
Não foi mais um livro, ele era o meu livro, o meu companheiro. Ele me fez prestar atenção em certas coisas que eu jamais notaria sozinho. Não me senti mais sozinha. As palavras penetravam na minha mente e passavam pelas minhas veias, as suas raízes se fixavam no meu ser. E passavam os meses e ele não saía da minha pasta, o abria todo dia, nem que fosse para ler uma palavra, como uma espécie de mantra diário. Eu tinha escrito o meu nome inteiro na primeira folha, junto com a data por extenso e o nome da minha cidade com caneta vermelha. Sim, ele era importante.
Depois o tirei da pasta e o deixava na cabeceira da cama, junto aos outros livros importantes. Os anos foram passando e os livros se acumulando por cima dele. O quarto foi mudando, as pessoas que nele dormiam também. Até que comprei uma estante e coloquei todos os meus livros na minha sala, era mais arejado e adequado para eles e para mim. Ele ficava bem na frente, no centro, era uma parte importante de mim. Eu o abria às vezes e lia as anotações nos cantos das páginas, algumas dobradas nas pontas, com manchas de comida; marcas de uma vida. Era lindo com as suas cicatrizes. Um livro novo é um livro triste, sem utilidade e vazio de sentimentos. Ao contrário disso, aquele livro era um dos livros mais felizes e importantes da minha estante.

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