sábado, 8 de setembro de 2007

Terra de ninguém




Entre carros e perigos, buzinas e luzes,
segue ele seu caminho.

Mãos cansadas e calejadas,
olhos sem esperança e com medo.
Chinelos velhos e tristes,
boca calada, selada.

'Eram 5 horas, quando passei correndo por ele, e, num milésimo de segundos, lançou-me aquele olhar; o olhar do medo.
O olhar de quem não aguenta mais sofrer e sente o peso de tudo nas suas costas. '

Olhar de barro, olhar de fogo.

Vento norte vem com ele, seus cabelos a ventar, vem pedindo perdão por aquilo que não tem culpa.
Aquilo que nem ele sabe quando vai parar.

Vem seguindo a avenida, triste , a chorar
vem com carros, vem com as luzes, todas a piscar.

Não chores forasteiro, você terá o seu lugar,
não adianta correr ligeiro,
tentando se encontrar.
Esse mundo não tem dono,
sei que isso irá pensar,
vão te fazer de bobo até não aguentar.

Não olha mais para o céu,
com medo das estrelas o cegar,
não sente mais o mel,
da mulher que viu passar.

Papéis de bala e cigarros, e a bola a rolar
meninos gritando alegres, esperando seu lugar.

Terra sem lei, terra sem alma,
terra sem dança, terra sem sol,
é só disfarce do violeiro,
tocando sibemol.

Entre bebidas e jogo,
vem ele a desviar,
tem medo de tudo e todas,
mas não cansa de olhar.

Perdeu tempo, perde a vida,
nesses caminhos a andar,
sol não cura feridas,
só ajuda a piorar.

Descanse em paz, bom moço
um dia isso irá parar,
não vai ser um olhar fosco,

que colocará lei neste lugar.


Yádini Winter

2 comentários:

Juliana disse...

Que bem bonito diny! =)
mto bom ;***

depósito de Idéias disse...

A poesia social perdeu seu espaço, o que é uma pena. Poucos ainda guardam atenção para os pobres e para os desalentos - uma vez que a grande massa é de "retirantes". Deverias ler Paulo Leminski, Diny, acho que irias gostar muito.

"Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos."

(Paulo Leminski)